Milhões em Projetos Sustentáveis, Nada Para os Trabalhadores: Até Quando?
Os Trabalhadores do Calçado: Anos Bons, Anos Maus, Mas Sempre na Mesma
As recentes notícias sobre a quebra de 6,5% nas exportações do calçado português em 2024, totalizando 1.702 milhões de euros, trouxeram novamente à tona os problemas estruturais do setor. O presidente da APICCAPS, Luís Onofre, lamenta as dificuldades externas e destaca a necessidade de diversificação dos produtos. No entanto, uma questão permanece imutável: seja em anos de crescimento ou de crise, os trabalhadores continuam a sobreviver com o salário mínimo e um subsídio de alimentação de apenas 2,5 euros por dia.
Olhando para os números, notamos que, enquanto o calçado tradicional encolheu, a marroquinaria cresceu 8,5% e atingiu um recorde de 351 milhões de euros, com malas e bolsas a subirem 10,6% para 175 milhões de euros. Mas quem realmente beneficia desse crescimento? Certamente não são os operários que, independentemente da direção do setor, continuam a receber os mesmos baixos salários.
A estratégia empresarial parece clara: diversificar, expandir e ajustar a produção conforme a necessidade do mercado. No entanto, essa flexibilidade é inexistente para os trabalhadores. Quando há crise, os despedimentos aumentam e as fábricas fecham. Quando há crescimento, os benefícios são retidos pelos mesmos de sempre. Em 2023 e 2024, um grande número de empresas fechou, enquanto outras, mesmo em dificuldades, continuaram a operar. Haverá um "anjo da guarda" que protege certos patrões?
Outro ponto intrigante é o projeto Bioshoes4all, promovido na comunicação social por Luís Onofre. Um programa financiado com dinheiros públicos e que promete uma nova geração de produtos sustentáveis. No entanto, quem são os reais beneficiários desse projeto e de tantos outros que envolvem milhões de euros de fundos do Estado? Os trabalhadores, que dão forma ao setor, pouco ou nada vão ver desse investimento.
O futuro, segundo a APICCAPS, passa pela exploração de novos mercados e pela subcontratação, muitas vezes no estrangeiro, replicando estratégias de concorrentes internacionais. A Europa, o mercado natural do calçado português, enfrenta estagnação, mas há esperança na Ásia, África e América do Norte.
Mas e os trabalhadores? Irão finalmente ver melhorias nas suas condições de vida? Ou continuarão a ser explorados, independentemente do rumo que o setor tomar? O discurso da diversificação não pode ser apenas para justificar mudanças que servem exclusivamente os interesses dos empresários. É hora de exigir que os lucros do setor sejam também distribuídos entre aqueles que verdadeiramente o fazem funcionar.

