80 trabalhadores sem salários, férias por pagar e portas fechadas: o drama em Oliveira de Azeméis
YFF II encerra sem aviso: 80 trabalhadores sem salários em Oliveira de Azeméis
O regresso de férias deveria ser um momento de normalidade, de retomar rotinas e de reencontrar colegas. Mas para cerca de 80 trabalhadores da fábrica YFF II – Young Fashion Footwear, em Pindelo, Oliveira de Azeméis, o dia 1 de setembro de 2025 ficará gravado como um pesadelo.
Quando chegaram às instalações, encontraram as portas fechadas e apenas um papel afixado à entrada: “Informamos que a empresa se encontra encerrada até novas ordens”. Nenhuma explicação, nenhum aviso prévio. Apenas silêncio e abandono.
Salários e subsídios em atraso
A gravidade da situação é ainda maior porque os salários de julho e agosto não foram pagos, nem o subsídio de férias. Ou seja, as famílias não só ficaram sem trabalho, como também sem o rendimento indispensável para viver. Muitos trabalhadores afirmam que fizeram horas extraordinárias em julho, confiando nas promessas de que seriam pagas mais tarde. Mas esse pagamento nunca aconteceu.
“Sinto-me enganada. Fiz horas extra confiando na palavra da empresa e agora não sei como vou pagar a renda”, desabafou uma funcionária à porta da fábrica.
Entre capital e insolvência
Logo no próprio dia 1 de setembro, o SNPIC contactou o advogado da empresa. Foi-nos comunicado que ainda não havia decisão final e que existia a possibilidade de uma injeção de capital, isto é, a entrada de fundos ou de investidores capazes de salvar a empresa, liquidar salários em atraso e manter a atividade.
Mas a alternativa apresentada foi a mais dura: a insolvência. Quando uma empresa declara insolvência, assume oficialmente que não tem condições para cumprir as suas obrigações, deixando salários, fornecedores e responsabilidades por pagar. Nestes casos, os trabalhadores ficam dependentes do Fundo de Garantia Salarial, o que pode ser uma longa e penosa espera.
A decisão, disseram-nos, poderia ser conhecida até ao dia 3 de setembro. Mas até lá reinava apenas a angústia e a incerteza.

Foto de Salomão Rodrigues - JN
Atualização – 2 de setembro de 2025
Poucas horas após o fecho do segundo dia de incerteza, chegou a confirmação: não há investidores interessados. A hipótese de injeção de capital caiu por terra.
O advogado da empresa transmitiu ao SNPIC que o proprietário da YFF II, José Luís, apresentou uma proposta inesperada: entregar a empresa a custo zero aos trabalhadores. Esta oferta, contudo, vem com um peso insuportável — os trabalhadores herdariam não apenas os ativos (máquinas, instalações), mas também todos os passivos, ou seja, dívidas acumuladas e responsabilidades financeiras da empresa.
Na prática, trata-se de uma escolha impossível: assumir o risco de herdar dívidas que podem arrastar os trabalhadores ainda mais para a ruína, ou assistir à inevitável insolvência da empresa.
O peso sobre as famílias
Neste momento, o que está em causa vai muito além de números em relatórios financeiros. São vidas concretas. São rendas que vencem, prestações bancárias que não esperam, crianças que têm de ir à escola, mesas que precisam de comida.
A incerteza, a ansiedade e o medo de não ter futuro corroem cada um destes trabalhadores e das suas famílias. Muitos já vivem no limite, e esta ausência de respostas agrava ainda mais o sofrimento.
O compromisso do SNPIC
O SNPIC está no terreno desde o primeiro dia. Temos acompanhado os trabalhadores, exigido explicações, pressionado a empresa e procurado todas as soluções legais e institucionais para proteger os direitos de quem trabalha.
Não aceitaremos que 80 famílias sejam entregues ao abandono. Denunciaremos cada injustiça, cada silêncio cúmplice, cada mentira dita em nome de uma falsa normalidade.
Esta luta não é apenas destes trabalhadores. É de todos nós. Porque hoje foram eles, amanhã pode ser qualquer um de nós.
O encerramento inesperado da YFF II é um ato desumano. Mas também é um apelo à consciência coletiva. E, em nome dos trabalhadores, afirmamos: não vamos desistir.
Unidos, somos mais fortes. Unidos, ninguém fica para trás.
Linha do tempo
- Julho e agosto de 2025 – Salários e subsídio de férias não foram pagos.
- 1 de setembro de 2025 – Trabalhadores regressam de férias e encontram a fábrica encerrada; SNPIC contacta o advogado da empresa.
- 2 de setembro de 2025 – Advogado comunica ao SNPIC que não há investidores; patrão propõe entregar a empresa aos trabalhadores, herdando ativos e passivos. Insolvência é agora o cenário mais provável.

